segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Túneis malconservados: vias sombrias e inseguras

Sistemas precários de câmeras, iluminação falha e infiltrações são alguns dos problemas


A iluminação precária é um dos problemas nos túneis do Rio
Foto: Hudson Pontes / Agência O Globo
A iluminação precária é um dos problemas nos túneis do Rio Hudson Pontes / Agência O Globo
RIO - A interdição por quase uma hora, na última quinta-feira, das duas galerias do Zuzu Angel e do Acústico, após um incêndio numa Kombi, expôs a falta de infraestrutura e de planos de contingência nos túneis da cidade. A ausência de um sistema de transmissão de imagens, para o Centro de Operações Rio (COR), do que acontece em 17 dos 19 túneis do município — apenas o Rebouças e o da Grota Fuda são monitorados durante 24 horas — pode explicar a lentidão das equipes de emergência da CET-Rio. Além disso, não há exaustores e áreas de refúgio suficientes, a iluminação da maioria é precária e sobram infiltrações.
Não existe uma padronização nos planos de monitoramento das galerias. O Túnel Zuzu Angel, que liga a Gávea a São Conrado, tem 1.590 metros e não conta com uma única câmera sequer. O Santa Bárbara, cuja extensão é um pouco menor — 1.357 metros —, tem quatro. As imagens da pistas entre Catumbi e Laranjeiras são monitoradas por uma base de apoio, mas não chegam ao Centro de Operações Rio. O moderno Túnel da Grota Funda, com 1.100 metros, inaugurado em junho do ano passado, conta com 48 câmeras, mas nada do que registram é enviado ao COR.
De acordo com Luis Carneiro de Oliveira, diretor do Clube de Engenharia, não faz sentido um túnel como o Zuzu Angel ainda estar desprovido de um sistema de segurança eficiente.
— Não resta dúvida de que equipamentos de monitoramento por fibra ótica deveriam ser instalados nos túneis mais extensos da cidade. Pelo Zuzu Angel, passam cem mil carros por dia. Se não for possível colocar uma câmera a cada cem metros, o que seria o ideal, deveria haver pelo menos uma a cada 500 metros. Aumentaria muito a segurança. Estamos perto de receber a Copa do Mundo e as Olimpíadas, e percebemos que intervenções necessárias ainda não foram feitas — afirma o engenheiro civil.
Pesquisador sênior do Grupo de Análise de Risco Tecnológico e Ambiental da Coppe/UFRJ, Moacyr Duarte considera crítica a situação dos túneis da cidade pelo fato de o fluxo de veículos ter chegado ao limite em quase todos. Ele diz não entender a falta de investimentos em sistemas de segurança.
— O centro de monitoramento do Rebouças mostra o quanto é importante ter um esquema semelhante em todos os túneis. Além de verificar cada ponto das galerias, a base de vigilância detecta situações de risco e joga a imagem escolhida para uma tela lateral. O monitor tem facilidade para identificar o problema e dar uma resposta rápida. Ela já sabe o que é necessário. Quando acontece um acidente no Rebouças, a equipe de socorro age com maior rapidez por causa do sistema. A CET-Rio tem um projeto para dotar os demais túneis de sistemas de monitoramento. Só o que falta é investimento — ressalta Duarte.
Galerias sem áreas de refúgio
Além de câmeras, é importante haver áreas de refúgio ao longo dos túneis. Esses espaços podem facilitar a remoção de veículos avariados, evitando engarrafamentos em casos de acidente. O engenheiro civil Roberto Lozinsky destaca que, entre os túneis mais novos da cidade, apenas os da Linha Amarela têm áreas de refúgio. Os serviços de manutenção preventiva também estariam sendo ineficientes, afirma o especialista:
— A engenharia dos túneis do Rio está defasada em pelo menos 20 anos em relação à da Europa. Também seria importante que brigadas de incêndio fossem instaladas nos acessos às galerias. Os túneis precisam ainda de antenas de rádio, que permitem repassar a motoristas informações em tempo real sobre qualquer contratempo. Não é uma tecnologia difícil nem cara de implementar.
A falta de iluminação do tipo LED nos túneis é outro fator que depõe contra o Rio. Na cidade olímpica, ainda predominam as lâmpadas a vapor de sódio ou mercúrio. Em São Paulo, observa Lozinsky, os novos túneis são dotados do sisterma mais moderno, que consome 80% menos energia e exige manutenção apenas de dez em dez anos.
Perigo na zona norte e no centro
Motoristas também reclamam da negligência do poder público em relação aos túneis. O jornalista Marcio Allemand, por exemplo, afirma que vem evitando o Túnel Noel Rosa, em Vila Isabel. Morador do Méier, ele costumava passar por suas galerias com frequência, mas passou a fazer outro caminho.
— A saída do túnel em Vila Isabel, ao lado do Morro dos Macacos, tem lixo e valões de esgoto por todos os lados. É um tremendo descaso. Isso para não falar do risco de assaltos. A falta de iluminação adequada favorece a ação de bandidos — diz Allemand.
Quem precisa passar pelo Túnel Martins de Sá, que desemboca na Rua do Riachuelo, no Centro, também se queixa. A passagem destinada a pedestres está sempre alagada por causa de infiltrações. O túnel de 350 metros não tem câmeras.
— A iluminação melhorou, mas as goteiras continuam. Sempre passo e molho os pés. É perigoso para mulheres, principalmente à noite. Muitas são assaltadas por pivetes. E olha que tem uma cabine da polícia logo ali, na saída — conta o comerciante Fabio Lourenzo, que mora no Catumbi.
De acordo com a prefeitura, os vazamentos no Martins de Sá serão reparados em breve. Os 104 refletores do túnel já receberam lâmpadas de vapor metálico (branca), que substituíram as de vapor de sódio (amarela), proporcionando um aumento de 30% da luminosidade. A pista foi recapeada e ganhou sinalização horizontal, além de um guarda-corpo para aumentar a segurança dos pedestres.
A Secretaria municipal de Obras informa que está elaborando estudos para a revitalização de outros quatro túneis da cidade. No ano que vem, deverão ser realizadas licitações para obras no Noel Rosa, Rebouças, Zuzu Angel e Acústico.
O órgão destaca que os principais túneis do Rio têm planos de contingência, incluindo Rebouças, Zuzu Angel, São Conrado, Joá, Noel Rosa, Santa Bárbara e Vice-Presidente José de Alencar (Grota Funda). Neles, são definidos protocolos operacionais para atuação das equipes da prefeitura em caso de incidentes.
Rebouças só ganhou câmeras em 2011
Uma das principais ligações entre o Centro e a Zona Sul, o Túnel Rebouças — o maior da cidade, com 2.800 metros — só ganhou comunicação direta com o COR em maio de 2011. O sistema de informações por rede de fibra ótica exigiu investimentos de R$ 3 milhões. O túnel conta com 50 câmeras, 25 em cada sentido.
Na última quinta-feira, a iluminação do Túnel Noel Rosa, que liga os bairros de Vila Isabel e Jacaré, foi novamente alvo de ladrões de equipamentos. Dessa vez, os criminosos levaram 10 projetores, 10 lâmpadas a vapor de mercúrio e 10 reatores. Além disso, eles danificaram 50 metros de cabos elétricos da galeria sentido Jacaré. Foi o sexto furto no túnel em menos de dois meses.

Fonte: O Globo


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