
RIO - Há seis anos e nove meses à frente da Secretaria de Segurança, José Mariano Beltrame ora se vê numa vitrine, ora numa vidraça. Principal articulador do programa de polícia pacificadora, que hoje beneficia 1,5 milhão de pessoas em comunidades do Rio, Beltrame diz que o planejamento estratégico do projeto tem ações previstas até 2018. Em entrevista ao GLOBO, ele anunciou que o próximo passo será consolidar a presença da Polícia Civil nas áreas de UPP. Serão criadas quatro delegacias em Manguinhos, na Rocinha e nos complexos do Alemão e da Maré. Este último, um conjunto de 16 favelas às margens da Avenida Brasil e das linhas Vermelha e Amarela, deve ser pacificado ainda este ano, mas a data o secretário guarda a sete chaves. Essas áreas terão, então, a PM fazendo o policiamento preventivo, e a Polícia Civil como responsável pelo registro e pela investigação dos crimes. Nos mesmos moldes das UPPs, as novas delegacias vão contar com policiais recém-formados. Ou, como Beltrame costuma dizer, “sem os vícios da guerra e da corrupção”. Apesar de ter anunciado a medida na véspera de o desaparecimento do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza, na Rocinha, completar 60 dias, o secretário afirma que o projeto já estava sendo previsto há meses. Tempo suficiente para ser feito o concurso público para admitir 150 delegados e 1.200 inspetores, que devem estar aptos para o trabalho em dezembro. Beltrame não esconde a preferência em ter mais policiais mulheres atuando nessas áreas. Para o secretário, elas são mais hábeis e, sobretudo, mais sensíveis para lidar com o complexo processo de pacificação. Um exemplo é a major Pricilla de Oliveira Azevedo, que comandou a UPP do Dona Marta, em Botafogo, e recentemente foi designada para coordenar a unidade da Rocinha.
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Como o senhor planeja instalar essas novas delegacias?
Esse é um estudo que está sendo gestado há bastante tempo. A criação das delegacias em áreas já pacificadas e uma em vias de ser ocupada segue um padrão de qualidade e um critério de seleção. Não vou fazer delegacia com a polícia que está aí. As novas unidades contarão com delegados e inspetores recém-formados, sem os vícios da guerra e da corrupção.
E qual foi o critério de escolha das comunidades que receberão as novas delegacias?
O estudo levou em conta a quantidade de moradores e o número de registros de ocorrência feitos nas delegacias das áreas onde ficam essas comunidades. Rocinha, Manguinhos e os complexos do Alemão e da Maré são maiores que muitas cidades do interior.
Essa iniciativa tem alguma relação com desaparecimento na Rocinha do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza?
Não. Esse é um dos tantos projetos relacionados ao processo de pacificação. Para você ter uma ideia, o número de registros de ocorrência feitos na 15ª DP (Gávea) por moradores da Rocinha em 2012 foi de 2.035, se não me falha a memória. No ano anterior, foram 1.145. E tem a toda a história desses registros. Porque antes você tinha o “império” (o tráfico) que resolvia isso... Agora a pessoa pode chegar lá e dizer “apanhei do meu marido”, porque quem vai fazer essa justiça não é o “império”. A pessoa pode descer e registrar ali dentro. O mesmo vai acontecer no Alemão, em Manguinhos e na Maré, que ainda será ocupada. Com isso, também vamos desafogar as delegacias no entorno dessas comunidades.
A ideia é que os policiais civis dessas novas unidades fiscalizem a atuação dos PMs da UPP, evitando a repetição de casos como o de Amarildo?
Isso (a implantação dessas delegacias) consolida a presença das instituições de segurança pública no processo de pacificação das comunidades. Contudo, não é garantia de que não haverá casos como o de Amarildo. A gente quer que isso não aconteça. A gente quer que as pessoas que vivem nessas áreas se sintam valorizadas pelo estado e pelas forças de segurança. Claro que a existência de uma delegacia vai evitar que um suspeito seja levado para uma UPP. Isso não vai acontecer.
E quando essas delegacias estarão efetivamente funcionando?
Em dezembro, novos delegados e inspetores estarão aptos para trabalhar. Esse é um processo lento, que começou com a realização de concurso. Inicialmente, estava previsto o número de 600 inspetores e cem delegados. Pedi ao governador Sérgio Cabral, que aceitou dobrar a quantidade de inspetores e aumentar para 150 o número de delegados. Dessa forma, teremos capacidade para implantar essas unidades até janeiro próximo. Ainda estou abrindo outro concurso, para mais cem delegados. Com isso, a gente também dá uma arejada na corporação. Eu fui à Academia de Polícia Civil e fiquei bem impressionado com o nível dos novos policiais.
E todos serão designados apenas para atuarem nessas novas delegacias?
Não. Nessas unidades daremos preferência às mulheres, muitas mulheres. Temos uma excelente experiência com as mulheres nessa área. A major Pricilla é um exemplo. Também vamos deslocar parte dos delegados para as delegacias, acabando com as centrais de flagrantes (delegacias que concentram o recebimento de registros de uma área maior à noite e nos fins de semana por conta da falta de delegados).
E quanto à estrutura física?
Essas delegacias vão seguir o padrão Delegacia Legal, com policiais e equipamentos novos. No Complexo do Alemão, por exemplo, estamos estudando a possibilidade de usar parte da estrutura das estações de teleféricos, que é muito bonita. Na Rocinha, contamos com a colaboração da prefeitura. É certo que essas delegacias não funcionarão em contêineres, como aconteceu com a PM.
O senhor acredita que a presença das polícias Civil e Militar nessas áreas abrirá caminho para a chegada de outras instituições?
Temos notícia de que a Defensoria Pública vai instalar um núcleo na Rocinha, mas não posso falar por outras instituições. Temos um planejamento para a área de segurança que vai até 2018 e foi elaborado em conjunto com as polícias Civil e Militar.
E no que consiste esse planejamento?
Nossa proposta é que, até o fim do próximo ano, o Rio conte com pelo menos 40 UPPs. Pode ser que a gente avance um pouco mais. A UPP não é a solução de todos os problemas. O projeto é grande, audacioso. Hoje, temos 8.592 PMs dentro de 34 áreas historicamente conflagradas. Os problemas vão existir. A ideia é chegar a mais de 12 mil policias... No futuro, policiais que atuam em UPPs serão enviados a batalhões, oxigenando essas unidades com policiais treinados para o patrulhamento de proximidade. Os novos (policiais) vêm todos para a UPP. Eles têm que saber o que é o programa. O fim do programa de pacificação é pegar os policiais do Dona Marta e botar todos no 2º BPM, e novos policiais vão para o Dona Marta. Os antigos vão para lugar onde não tem UPP. O fim do processo é todo mundo ter passado por UPP.
Há medidas voltadas para regiões onde não há UPP?
Temos um estudo que mostra os batalhões da PM com o maior déficit de policiais. Essas unidades receberão reforço futuramente. Também estamos trabalhando na instalação de companhias independentes da PM, que serão sete em cidades do interior, de Niterói e da Baixada. A comunidade da Mangueirinha, em Duque de Caxias, já recebeu uma delas.
Onde serão instaladas as demais?
Posso dizer apenas que já temos em Duque de Caxias e em Macaé, na região do Norte Fluminense.
De volta às áreas pacificadas. Como está o projeto que prevê o retornos de bailes funk nas comunidades?
Essa é uma questão que não pode ser de responsabilidade exclusiva da polícia. Até dezembro teremos um conjunto de medidas que serão colocadas em prática com o apoio de outras instituições. Não falo apenas sobre os bailes funk, mas também de outros eventos culturais. É preciso ouvir os moradores. Há muita gente dentro das comunidades que teme o retorno dos bailes.
Como assim?
Outro dia estive em uma comunidade pacificada. Não recordo se foi no Salgueiro ou no Andaraí. Enquanto eu andava pelo local, acompanhado pelo comandante do batalhão da PM, um morador nos abordou. Ele queria saber se poderia fazer uma festa de aniversário. O oficial respondeu que não haveria problema. Foi quando o morador disse que a festa seria na rua, que colocaria mesas e uma churrasqueira. O oficial, então, arregalou os olhos e respondeu que ele não poderia fechar a rua.
Memórias de um secretário
A lida nas plantações marcou a infância e a adolescência de José Mariano Beltrame. Criado numa área rural em Santa Maria (RS), o secretário ainda sente na lombar os reflexos de carregar caixas de tomates e batatas para ajudar os pais. Lembranças que se somam a episódios recentes, como a ocupação do Alemão e a prisão do traficante Nem, num caderno de capa vermelha. Tudo isso estará em seu primeiro livro, que deve ser publicado até o fim do ano que vem. Da mesma forma que guarda segredo sobre os planos para a segurança, ele esconde o jogo sobre o teor do livro:
— Quando ficar pronto, você vai saber.
Fonte: O Globo
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