quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Vice-prefeito deixa Vila Aliança após 50 anos na comunidade

Ele nega que decisão tenha sido tomada por questão de segurança


Antigos aliados. O vice Adilson Pires com o prefeito Eduardo Paes
Foto: Cezar Loureiro/1-1-2013 / O Globo
Antigos aliados. O vice Adilson Pires com o prefeito Eduardo PaesCezar Loureiro/1-1-2013 / O Globo
RIO — O vice-prefeito do Rio de Janeiro, Adilson Pires (PT), trocou de endereço logo no primeiro dia do ano, quando começou a exercer seu mandato, que acaba em 2016. Acompanhado da mulher, ele deixou a comunidade de Vila Aliança, em Bangu. Na prefeitura, comenta-se que a decisão teria sido tomada por orientação do Gabinete Militar, por temer pela segurança do número 2 na hierarquia do município, já que a Vila Aliança é dominada pelo tráfico. Ontem, Adilson negou que tenha qualquer preocupação com sua integridade física. O vice de Eduardo Paes disse que sua maior preocupação era que, nos próximos quatro anos, ocorresse um mal-entendido que pudesse ser explorado politicamente, caso continuasse a morar na favela.
— Meu pai trabalhou na construção da Vila Aliança e ganhou o imóvel do governador Carlos Lacerda, que sorteou cinco casas entre os operários. Isso foi na década de 60. Todos me conhecem, tenho orgulho da minha origem. Mas tenho que me preocupar com a imagem. Eventualmente, posso ser fotografado ou filmado cumprimentando sem saber alguém ligado ao tráfico. Pode acontecer, apesar de os bandidos serem uma minoria. Num universo de 30 mil moradores, estamos falando de 80 a cem que devem ter alguma ligação com a venda de drogas — disse Adilson.
O vice trata da situação com naturalidade. Faz questão que dizer que, mesmo ocupando um cargo executivo, continuará a visitar a família na comunidade, onde morou por quase 50 anos. Agora, divide provisoriamente um apartamento com o filho na Rua Bento Lisboa, no Catete. Na Vila Aliança, ficaram a mãe e o resto da família.
Comunidade é base eleitoral
Em seu dia a dia, Adilson está sempre acompanhado por um PM à paisana, que serve como uma espécie de ajudante de ordens.
— Mas, se for visitar a Vila Aliança, irei sozinho, como alguém que viveu e tem parentes lá — afirmou.
O vice-prefeito fez questão de ressaltar que nunca foi vítima de violência na comunidade — na única vez em que foi assaltado, o crime ocorreu na Central do Brasil. Até 2010, ele morava numa casa na Vila Aliança que, segundo a PM, ficava perto de uma boca de fumo. Em 1994, durante a campanha presidencial, Adilson chegou a ser visitado em casa pelo amigo Luiz Inácio Lula da Silva. Há dois anos, ele se mudou para um condomínio com grades também na comunidade.
Vila Aliança é sua principal base eleitoral: da região, saiu a maioria dos votos que lhe garantiram seis mandatos na Câmara dos Vereadores. Adilson Pires acrescentou que a transferência para a casa do filho no Catete é provisória, enquanto não encontra outro apartamento para morar. A prioridade é que seja nas proximidades da sede da prefeitura, na Cidade Nova, onde acumula o cargo de vice com o de secretário municipal de Desenvolvimento Social.
— A proximidade com o trabalho foi outra razão para eu me mudar. Tenho que chegar à prefeitura cedo. Morando na Vila Aliança, poderia levar mais de duas horas para chegar ao Centro — disse o vice.
No primeiro mandato do prefeito Eduardo Paes (2009-2012), o PMDB optou por uma chapa “puro-sangue’’, que teve como vice o secretário municipal de Meio Ambiente, Carlos Alberto Muniz. Na reeleição, o PMDB se decidiu por uma aliança com o PT. Adilson sempre foi o nome preferido por Paes. Na década de 90, os dois foram vereadores juntos. E, no primeiro mandato de Paes, o agora vice-prefeito foi líder do governo na Câmara.
A favela de Vila Aliança surgiu originalmente de um condomínio construído na década de 60, durante o governo Carlos Lacerda, para reassentar moradores de favelas removidas da Zona Sul. A partir de 1964, foram transferidos para o condomínio moradores do Morro do Pasmado (em Botafogo), da Favela do Pinto (Lagoa) e da Favela do Esqueleto (no terreno onde foi construída a Universidade do Estado do Rio de Janeiro, no Maracanã). Com os anos, a comunidade cresceu desordenadamente, se favelizando.

Fonte: O Globo

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