domingo, 14 de outubro de 2012

Salário baixo e estrutura precária derrubam a saúde

Para tirar o setor da lanterna no índice de qualidade do governo federal, o prefeito Eduardo Paes terá que melhorar hospitais para atrair e manter novos médicos

Rio - Para reverter o quadro de pior capital do país na área da saúde, o prefeito Eduardo Paes terá que suar muito. O desafio de melhorar o atendimento nos hospitais e diminuir o tempo de espera dos pacientes será pesado. As unidades sofrem com falta de profissionais e de infraestrutura. A promessa é contratar 2 mil médicos até 2016, mas a rede sofre com baixos salários. Por 24 horas semanais, concursado no início de carreira ganha R$ 1.600 contra R$ 9 mil na rede privada. Um terceirizado recebe entre R$ 6 mil e R$ 9 mil por jornada de 36 horas.
Regina se queixa de máquina de Raio-X quebrada e falta de médicos no Hospital Salgado Filho | Foto: Alessandro Costa / Agência O Dia
Regina se queixa de máquina de Raio-X quebrada e falta de médicos no Hospital Salgado Filho | Foto: Alessandro Costa / Agência O Dia
Na escala de 0 a 10, o Rio atingiu 4,33 no Índice de Desempenho do Sistema Único de Saúde (IDSUS) deste ano. O péssimo rendimento é atribuído à falta de atenção básica e falha nos procedimentos de alta complexidade, como os das emergências. Em enquete de O DIA Online 58% dos cariocas apontou que a Saúde deve ser a prioridade do prefeito reeleito.
Especialista em saúde pública da UFRJ, Lígia Bahia frisa que só contratar não vai ‘curar’ o setor: “Os profissionais não querem trabalhar em ambientes precários e o cenário atual dos hospitais é caótico. É preciso que a prefeitura ofereça condições dignas de trabalho, ambiente limpo e materiais de insumo”.
A baixa qualidade no atendimento nas emergências tira do sério a diarista Regina Célia, 54 anos: “Nunca tem ortopedista no Salgado Filho. Já aconteceu de eu passar pela triagem e na hora de ser atendida, não tinha médico. Outra vez esperei uma hora para fazer o raio-X e não avisaram que a máquina estava quebrada há uma semana”.
A queixa repete-se no Hospital Municipal Souza Aguiar. “Recebi encaminhamento do posto de saúde para o Souza Aguiar. Quando cheguei na emergência, não me atenderam, disseram que meu problema não era grave. Há 3 dias não durmo, com forte zunido no ouvido. Ninguém me examinou. É um descaso absurdo”, exaspera-se o aposentado Dionízio Bezerra, 75 anos.
Secretário admite falha
O secretário municipal de Saúde, Hans Dohmann, admitiu a deficiência no atendimento dos hospitais da rede. “Há sobrecarga acumulada nos médicos com 15 a 20 anos de profissão. Com a reforma geral na saúde haverá progresso natural e os profissionais vão mudar de atitude”, garante o secretário. Segundo ele, o padrão será o do modernizado Hospital Pedro II, em Santa Cruz. Não há, no entanto, data para começar a transformação.
Controle biométrico ampliado
O controle de ponto biométrico dos profissionais da Saúde, já instalado nas clínicas da família, será ampliado até 2016 para todos os hospitais e postos municipais.
Para o Sindicato dos Médicos, o sistema é abusivo.“O servidor não pode ser obrigado a fornecer digital para controlar faltas”, explica o presidente Jorge Darze. O médico Felippe Zebulum, da clínica da família do Catumbi, tem a presença controlada pela digital e aprova o sistema.
Clínica da família reduziu à metade pacientes em hospitais
Oposto do caos nos hospitais, a Clínica da Família menina dos olhos do prefeito, promete ser o grande investimento da próxima gestão, com 70 unidades para somar às 68 já criadas e outras duas que serão inauguradas até o fim deste ano.
Para os pacientes, a fórmula do sucesso é a qualidade no atendimento. “Os médicos têm paciência. Minha mãe criou vínculo familiar com a médica dela”, diz a professora Ana Gaudio, 51 anos, filha de Azair Gervasoni, 80, que é paciente da Clínica da Família Padre John Cribbin, em Realengo. Desde março é atendida em casa pela médica Luciana Bessa. Azair sofria de depressão. “Ela nem andava direito. Agora, ela passa e lava cantarolando”, conta Ana.
A cobertura das clínicas é de 39,5% da população (2,5 milhões de cariocas). Com as 68 unidades em funcionamento em 43 bairros, os hospitais públicos sofreram queda de 50% nos atendimentos.

Fonte: O Dia

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