Brasília – A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Cachoeira
deixou de votar hoje (17) os requerimentos que pediam a quebra de sigilo da
matriz da empresa Delta Construções e a convocação de seu ex-diretor, Fernando
Cavendish. Os requerimentos, por decisão do relator, Odair Cunha (PT-MG), foram
retirados de pauta para votação posterior.
Durante a reunião, o relator alegou que ainda não havia identificado indícios
de comprometimento da empresa Delta com a suposta organização criminosa
comandada pelo empresário goiano Carlos Augusto de Almeida Ramos, o Carlinhos
Cachoeira. O relator disse ainda que esses requerimentos poderão ser apreciados
no futuro.
"Há indícios evidentes de que essa empresa, a Delta, sob o comando do senhor
Cláudio Abreu, serviu à organização criminosa. Na minha opinião, não há ainda
indícios suficientes para quebra de sigilos, além das suas filiais no
Centro-Oeste", disse o relator ao justificar sua decisão de não colocar os
requerimentos em votação.
O senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) tentou derrubar a retirada dos
requerimentos da pauta, mas foi vencido pelo plenário da CPMI, que aprovou a
decisão do relator. "É um mal começo se nós aprovarmos esse sobrestamento",
avaliou.
Além da decisão de ainda não investigar a Delta nacional, o relator também
optou por não colocar em votação as convocações de três governadores: o de
Goiás, Marconi Perrilo (PSDB), do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), e do Distrito
Federal, Agnelo Queiroz (PT). De acordo com o presidente da comissão, senador
Vital do Rêgo (PMDB-PB), esses requerimentos poderão retornar à pauta da
comissão no dia 5 de junho, data marcada para a próxima reunião
administrativa.
Na reunião de hoje, a CPMI aprovou a convocação de 51 pessoas para prestar
depoimento e quebrou mais de 40 sigilos bancários de pessoas e empresas
suspeitas de servirem de laranja na suposta organização comandada por Carlinhos
Cachoeira. Entre as quebras de sigilo, estão as das filiais da empresa Delta nos
estados da Região Centro-Oeste.
A decisão do relator, que recebeu o apoio dos deputados do PT, provocou muita
discussão. O deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) chamou de "devassa" o movimento
para quebrar o sigilo da empresa. "Isso está sendo feito pelas pessoas que
querem politizar a nossa investigação", disse.
O líder do PT na Câmara, deputado Paulo Teixeira (SP), também defendeu a
restrição da investigação das atividades da Delta na Região Centro-Oeste. "Quem
muito abraça, pouco aperta", disse o deputado defendendo que a comissão deve
buscar um foco.
Já o senador Pedro Taques (PDT-MT) contestou o entendimento do relator de que
não há indícios do envolvimento da empresa Delta Construções no esquema
investigado pela Polícia Federal (PF). Ele citou um diálogo interceptado pela PF
no qual Cachoeira conversa com o ex-diretor da Delta no Centro-Oeste Cláudio
Abreu.
Na conversa, Abreu e Cachoeira combinavam um encontro do senador Demóstenes
Torres (sem partido-GO) com o diretor executivo licenciado da Delta nacional,
Carlos Pacheco. "Ele dizia que Pacheco precisava participar de uma conversa com
Demóstenes. Ele disse que um avião viria pegar Demóstenes para um encontro com o
Pacheco, que é diretor executivo nacional da Delta, que tem sede na Região
Sudeste", informou Taques.
O senador insistiu com o relator para que o requerimento fosse colocado em
votação. "A ética e o crime não respeitam geografia. O crime não ocorre só em
uma região. Não há cabimento afastarmos o sigilo da Delta só no Centro-Oeste.
Não há que se falar em redução da investigação e, sim, universalização. Não se
trata de devassa", defendeu o senador.
O líder do PSDB no Senado, Álvaro Dias (PR), disse que, ao não colocar em
votação o requerimento para quebra de sigilo da matriz da Delta, o relator
estaria "selecionando alvos". "Há, no inquérito, o repasse de R$ 39 milhões para
empresas laranja do senhor Cachoeira. Há gravação com o senhor Cachoeira dizendo
'eu sou a Delta'. Há, no inquérito, a informação de que Cachoeira tinha uma sala
na empresa Delta. Há a suposição, inclusive no Ministério Público, de que
Cachoeira é um sócio oculto da empresa Delta ou o grande lobista que atuava para
marcar os interesses nas esferas municipal, estadual e federal", considerou o
senador.
Fonte:Luciana Lima
Repórter da Agência Brasil
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