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domingo, 18 de maio de 2014

Baía de Guanabara se transforma em cemitério de navios

Retirada das embarcações encalhadas começou em 2012, mas foi interrompida há cerca de um mês

Rio - Nas águas da Baía de Guanabara, repousam esquecidos há décadas centenas de esqueletos de metal e madeira. O poluído manancial de 381 quilômetros quadrados de espelho d’água, é um cemitério de embarcações. O último relatório da Secretaria de Estado do Ambiente estima que há, total ou parcialmente submersos, pelo menos 250 navios, carcaças, e barcos de pequeno, médio e grande porte. Alguns estão lá há 50 anos.
Carcaças são um risco para o meio ambiente e para o tráfego de navios nas águas da Guanabara
Foto:  Estefan Radovicz / Agência O Dia

Em 2012, a secretaria, em parceria com o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) e Ministério da Pesca e Aquicultura, tomou a iniciativa de pôr um fim a esses “fantasmas do mar”, que representam alto risco de acidentes ambientais e para o tráfego naval.
Os trabalhos começaram ao longo do Canal de São Lourenço, entre Niterói e São Gonçalo, na Região Metropolitana. Segundo a Marinha, a Capitania dos Portos informou que dos 52 cascos abandonados e ancorados — um quinto do total — naquela área, 38 foram retirados até o momento. Os outros 14, incluindo até um barco da própria Marinha, continuam impedindo o atracamento no Centro Integrado de Pesca Artesanal (CIPAR), uma controversa estrutura inaugurada em dezembro, mas que nunca funcionou.
As primeiras carcaças foram eliminadas pelo governo do estado. O içamento e destino final da maior parte do material, como mais de 100 toneladas de aço, madeira e fibras de vidro, vendidos para metalúrgicas, siderúrgicas e firmas de reciclagem, dividida em lotes, seriam de responsabilidade da empresa Tanquefer-Comercial de Tanques Ltda, de Bangu, e do paulista Nelson Batista Ruy, que venceram leilões.
Os trabalhos para a limpeza do canal, no entanto, estariam à deriva. Há mais de um mês, segundo testemunhas, não há movimentação de guindastes e trabalhadores às margens da Rodovia Niterói-Manilha. “Vamos saber o que está ocorrendo. Se os prazos não estiverem sendo respeitados, multaremos os responsáveis. Eles poderão até ser impedidos de participar de outros leilões”, advertiu o coronel José Maurício Padrone, chefe da Coordenadoria Integrada de Combate aos crimes Ambientais (CICA), órgão da secretaria.
Na sexta-feira, Paulo Filho, um dos representantes da Tanquefer, disse que “não estava a par do assunto” e passou o telefone do sócio, identificado apenas como Miro. “Estamos dentro do prazo, mas não me lembro de datas”, limitou-se a dizer, desligando o celular. A assessoria da Marinha não respondeu se há relatórios sobre a quantidade de embarcações abandonados na Baía de Guanabara, e também não comentou o fato de um barco de sua propriedade estar, supostamente, entre os abandonados.
Número aproximado de embarcações naufragadas e semi-naufragadas em torno de 250
Foto:  Divulgação

Plano de revitalização terá R$ 1,3 bi

A revitalização do Canal de São Lourenço faz parte do Plano Guanabara Limpa e visa alcançar, até 2016, 80% de despoluição da Baía de Guanabara. Milhares de pescadores serão beneficiados. O programa prevê a aplicação de R$ 1,3 bilhão, inclusive em obras de esgotamento sanitário e saneamento nos municípios do entorno da Baía até 2016.
O pescador Tito Linhares, de 50 anos, espera ansioso pela volta da atividade em Niterói, que gera 35% do pescado do estado. “Vai salvar nossas famílias”, diz Linhares. Casado e pai de quatro filhos, ele é obrigado a se dedicar a outra atividade, de pedreiro, para completar a renda familiar. “As autoridades e a maior parte da população ainda engatinham em termos de cuidado e atenção com a Baía. Pouca gente está realmente interessada e preocupada com sua despoluição”, critica o biólogo e oceanógrafo David Zee.
Graças à retirada de dezenas de carcaças abandonadas e à conclusão das obras de dragagem dos canais do Fundão e do Cunha, dois estaleiros da região (Inhaúma, antigo Ishibrás, arrendado pela Petrobras em 2010, e o Rio Nave, ex-Estaleiro Caneco) que estavam prestes a fechar as portas, voltaram a produzir e agora geram mais de 5,2 mil novos postos de trabalho. Na operação de retirada, foram investidos R$ 194 milhões, por conta da Petrobras, em parceria com o governo do estado e a UFRJ.
Processo de retirada das embarcações foi suspenso

O deputado estadual Carlos Minc (PT), que coordenou estudos sobre o “cemitério de navios” quando era secretário estadual do Ambiente, disse sexta-feira que vai cobrar explicações “de todas as esferas” governamentais, privadas e da Marinha, em relação à paralisação do processo de retirada de embarcações abandonadas na Baía de Guanabara.
“A finalização dessa primeira etapa de limpeza é fundamental para que a dragagem e recuperação ambiental da região (Canal de São Lourenço) seja feita”, ressaltou Minc, lembrando que R$ 3 milhões, oriundos do Fundo Estadual de Conservação Ambiental (Fecam) já estão garantidos.
Outros R$ 16 milhões foram prometidos por Marcelo Crivella (PRB), em Niterói, no início da retirada de carcaças, quando então era ministro da Pesca e Aquicultura. A assessoria de imprensa do ministério não comentou o assunto.

Fonte: O Dia

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